domingo, 7 de fevereiro de 2010

Conto (1).

O ritual era o mesmo de sempre. Qualquer que fosse a noitada e independentemente das horas a que esta acabava, a passagem pela padaria era obrigatória. Confortar o corpo de algum alimento depois duma noite bem bebida ou, quando os copos não eram muitos, pesticar algo para enganar o estômago, antes de ir dormir.
Durante umas noites seguidas, a entrada na padaria foi diferente. Fosse qual fosse a hora que ele chegava ao estabelecimento, ela estava sempre lá. Comprava pão fresco, sorria para ele e ia-se embora. Apesar da sua timidez e das primeiras vezes não ligar muito, o sorriso era retribuído. Mas a regular frequência deste simples contacto fê-lo pensar, questionar a presença daquela rapariga naquele lugar, sempre à mesma hora que ele. A verdade é que as suas noitadas acabavam tarde e talvez fosse aquela hora que ela gostasse de ir comprar o pão. Não deixaria de ser uma hipótese, mas nos tempos que correm pouca gente faz isso, sobretudo jovens. Talvez também tivesse vindo da sua noitada e gostasse da padaria e do seu pão, tal como ele. Perfeitamente possível. Coincidência. Mas aquele sorriso era demais suficiente para o pôr a pensar.
Certa noite, a caminho para a padaria, pensou, se por acaso a tal rapariga lá estivesse, seria corajoso o suficiente para a abordar e trocar duas os três palavras com ela. Bem dito, bem feito. Ela estava lá. Comprou o pão, sorriu para ele e saiu. Quando estava mesmo junto à porta, a transpô-la para o exterior, ele tocou-lhe no ombro e, com algum nervosismo, perguntou-lhe quem era e o que fazia ali, sempre à mesma hora que ele. Ela sorriu e respondeu-lhe baixinho ao ouvido. Ele sorriu e convidou-a para tomar algo ali e conversarem um pouco. Ela aceitou mas antes sugeriu que tivessem a conversa no jardim em frente. Seria mais agradável e particular.
Assim foi. Conversaram até o sol mostrar os seus primeiros raios. Conversaram e falaram. De tudo e de nada. De muito e de pouco. Da vida em geral. Riram e sorriram. Uma conversa que ele há muito não tinha com uma rapariga. Por fim, cansados, com o sol já a dar os bons dias, despediram-se e cada um seguiu o seu caminho.
Ele nunca mais a viu na padaria. Nem noutras paragens. Nunca esquecera aquele sorriso e aquele momento vivido por ambos.
O ritual da padaria continua.



Escrito a 07 de Fevereiro de 2010, às 00h12m.

6 comentários:

Anónimo disse...

Oi, andas a revelar as minhas histórias de amor?? isso não se faz pah! true story.

Leote

Gema disse...

Mt bonito sim sr. ;)

susu disse...

Uma muita bonita história sim! E muito bem contado ;) Bjs

Marisa disse...

Esta história parece-me familiar... Vai-se lá saber porquê...
Beijo :)

Hugo Neves disse...

Giro:)

Rita disse...

isto podia, sem sombra de dúvida, ter sido escrito por mim. Gosto sobretudo do final, não óbvio. Parabéns =)